Afinal, o que é “Samba de Gafieira”?13.ago.2010

por Kenio Nogueira

E aí gente da dança de salão! :)

Veio-nos a oportunidade de falar um pouco sobre o samba de gafieira. Afinal, o que vem a ser este “bicho”? Muito se fala dele e nele, mas o que notamos é que há uma distância muito grande entre a coisa em si, a prática desta coisa e as pessoas que o praticam hoje.

Primeiramente, samba é samba. Aí vem outros falarem nas suas subdivisões, que não aprofundaremos neste estudo, mas só para citá-los:

  • partido-alto, samba-exaltação, samba-canção, samba-enredo, samba-choro, samba-sincopado, samba de breque, bossa nova, samba-pagode, samba de moderno partido, sambalanço ou samba swing, samba-reage e samba-rock.

Essas nomenclaturas referem-se ao samba enquanto música.

O samba de gafieira tem esse nome porque originalmente era dançado em cabarés, clubes e gafieiras localizados no subúrbio carioca, em bairros onde, atualmente, estão as escolas de dança de salão mais conhecidas. É importante ter-se em mente que a gafieira é apenas o local onde esse samba surgiu, no qual eram tocados também outros gêneros musicais como bolero e swing, dentre outros.” (PERNA, 2005)

A alta sociedade da época era realmente avessa à música do povo. Naquela época, estamos falando da década de 40, começa a surgir então um movimento muito forte no mundo, que influenciou e até hoje influencia, a música ocidental e agora a oriental. O movimento Swing.

A explosão do swing foi algo inimaginável para os dias de hoje. Mas na época repercutiu na composição de quase todas as bandas ocidentais. Era a época das Big Bands. Bandas musicais onde o número de componentes ultrapassava facilmente dez elementos. Havia uma saudável concorrência entre elas no momento dos bailes, uma querendo tocar melhor do que a outra. Muitas vezes no mesmo baile haviam duas bandas propositadamente dispostas em dois palcos antagônicos. Quando uma terminava de tocar, já começava a outra, como dois grandes duetos no salão. E os dançarinos freneticamente dançando… Foi no bairro pobre do Harlem, em New York, mais precisamente no Savoy Ballroom, onde os negros divertiam-se com sua dança, que a partir de 1927 foi denominada de Lindy Hop. O Savoy Ballroom funcionou de 1926 a 1958.

Pensilvania 6-5000 (Glen Miller Orchestra)

A característica principal desta música era a presença dos metais, tipicamente reconhecidos no jazz, como o saxofone, p. ex. Mas na verdade o jazz é um gênero musical, até onde pudemos pesquisar, extremamente genérico e que engloba diversos outros gêneros. É como nosso samba, que tem outras pequenas subdivisões, como citamos acima, compreendendo que tudo é samba. Assim, fazendo uma analogia, tudo é jazz. Para se entender de forma mais simples.

Ora, e qual é a característica marcante da música jazz? O improviso musical.

E qual seria então, como reflexo lógico e natural, a característica marcante da dança, swing? Também, o improviso.

Mas o que tem a ver o jazz, o swing, etc como samba de gafieira? Tudo!

Notemos que, nos salões de baile brasileiros se dançava bolero (também muito em evidência na década de 40), swing (por influência direta norte-americana) e também nossos gêneros nacionais: samba-canção, samba-batucada e samba-liso. Essas eram as três formas de se dançar o samba de salão no Brasil até a década de 1940, segundo Foraciari (1950).

Samba-canção era uma dança de dois movimentos por compasso;

Samba-batucada era uma dança com três movimentos por compasso, baseado no samba-canção;

Samba-liso era uma dança de quatro movimentos para dois compassos, sendo totalmente diferente dos outros dois.

Podemos perceber sua letra triste, até mesmo depressiva em alguns momentos, mas falando de amor. Era característica do samba-canção e até mesmo de um samba “embolerado”, se podemos dizer assim.

Na década em questão, 1940, o swing começa a influenciar o nosso samba. Com isto ele toma a seguinte forma audível:

Neptuno (Raul de Barros, 1958)

Raul de Barros foi um dos grande intérpretes e com as características básicas de um samba de gafieira genuíno. Nota-se claramente a influência dos metais na música, uma ginga mais própria nossa, de nossas raízes e uma bem maior alegria na sua execução. Todas essas características foram ter à dança, que daí sim começou a ser desenvolvida como samba de gafieira que conhecemos hoje.

Por dentro das décadas de 1950, 1960 (eclosão do movimento bossa nova no Brasil) e passando pelos anos 1970 (das discos) até chegar aos dias de hoje, o samba de gafieira foi-se tranformando. Principalmente com a queda das gafieiras, após os anos 60, a dança foi ficando esquecida e deixando de ser praticada nos salões, pelo menos da forma massiva como era. Sobreviveram poucas gafieiras, restritas claro, ao Rio de Janeiro.

Gafieira Elite, Rio de Janeiro

..

Gafieira Estudantina, Rio de Janeiro

.

Gafieira Lapa 40º, Rio de Janeiro

.

E para finalizar esta pequena pesquisa, segue um áudio de um samba de gafieira bem atual. Notem que já temos aqui muita influência de outros estilos, que já vieram com a evolução tecnológica, como guitarras, mas persistem os metais… poderíamos até dizer que seria um samba de gafieira com um toque de samba rock (?)

Reza Forte (banda Sandália de Prata)

No próximo post falaremos um pouco mais da dança: samba de gafieira.

Um grande abraço a todos  e vamos dançar!!! :)

.

Postado em Dança, Dança de Salão, Pesquisas, Samba de gafieiracom Deixe seu comentário →

Bolero ou Cha Cha Cha?08.ago.2010

por Kenio Nogueira

Olá todos (principalmente profissionais de dança de salão)! :o

Às vezes somos movidos por impulso para tomar nossas ações. É normal que isso nos coloque em posição de equívocos mais facilmente do que quando paramos para analisar os fatos e os objetos de nosso trabalho.

A música é, definitivamente, um objeto de trabalho nosso. Aliás, a música talvez seja nosso motivo de trabalho porque sem ela poderíamos até mesmo dizer que não existiria a dança de salão. As danças de salão surgiram da necessidade do povo expressar-se por estímulos musicais, ou melhor, naqueles estímulos musicais do cancionero popular, enquanto se divertiam e através da linguagem corporal propagavam sua cultura. E mesmo antes disso, antes de músicas populares, onde as músicas eram mais eruditas, com objetivo de agradar às cortes européias, aos reis e rainhas, aos faraós…  enfim; nossa maior aliada na dança de salão é a música.

Mas então como a maior aliada pode transformar-se na maior inimiga? A resposta é uma só: falta de conhecimento, falta de estudo ou decisões por impulso dos “profissionais”, visando agradar ao público e/ou ao dançarino/bailarino mas sem o devido cuidado para tanto. A dança de salão permite ousadias hoje em dia, principalmente quando a vemos sobre os palcos. Algo extremamente novo para uma modalidade de dança também recém-nascida. As danças de salão são, por definição e origem prática de cada uma delas, dificílimas de serem compreendidas como algo estático e imutável. Ao contrário, elas mudam constantemente, talvez de década para década. Mais lentamente nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, para se transformarem quase completamente nos fins do século XX e início do século XXI. É assim que temos como exemplo clássico no Brasil uma modificação do maxixe para o samba de gafieira. Fins do século XIX / início séc. XX dançava-se o maxixe às escondidas, porque era uma dança proibida, libidinosa, com contato muito íntimo das partes genitais entre homens e mulheres. Mas era uma dança de casal e portanto uma dança de salão porque se dançavam nos salões (apesar de às escondidas). Os anos passam-se e outras formas musicais vão aparecendo, a cultura do povo e o entendimento vai se alterando, os preconceitos vão-se caindo por terra e o contato íntimo entre homem e mulher vai ficando mais normal na metade do século XX. É mais normal dançar nos salões às claras com maior proximidade e aqueles movimentos “libidinosos” já não tinham razão de ser ou não mais chocavam com tanta atenção a sociedade. A música vai crescendo, absorvendo impactos do mundo, sendo influenciada principalmente pela alta do swing norte-americano (um verdadeiro movimento mundial na época da das décadas de 20, 30 e 40) e surge o samba de gafieira, que era o samba dançado nas gafieiras, ao som de um samba musicado com influências do jazz (enquanto swing), sob acordes de instrumentos metálicos (saxofone, trompete…). Então vimos que do maxixe fomos ao samba de gafieira, que persiste até hoje.

Toda esta introdução foi para apresentar a possibilidade de modificações, mas dentro de uma naturalidade associada às transformações sociais. E assim aconteceu com a salsa, que veio do son (cubano), o bolero, o cha cha cha (muito tocado nas mesmas décadas anteriores citadas), e vários outros gêneros musicais que deram origem à dança associada a cada um deles.

E o que me motivou a escrever este artigo é um certo engôdo, cometido até mesmo inconscientemente, para com a sociedade, da parte de alguns profissionais de dança. Estes deveriam instruir-se com mais cautela e cuidados. Cito aqui um exemplo clássico, onde eu mesmo já presenciei várias vezes casais dançando, até mesmo nos salões de dança, bolero sob uma música que é – genuinamente – um cha cha cha. Admitimos aqui certos enganos quando a música não é bem definida, claro. Mas o exemplo que vou dar é clássico em se tratando de “erro”, porque eu já presenciei várias e várias vezes casais dançando a música Sway (que é um cha cha cha) com passos de bolero.

A música em questão tem uma “ginga” característica do cha cha. É um gênero que mais tarde derivou para a salsa, com influência da própria salsa cubana sendo dançada no mundo, depois que se popularizou ao sair de Cuba. Apesar de ter uma construção musical parecida (quaternária ou 4 x 4) como o  próprio bolero. O cha cha “evoluiu” para a salsa, mas continuou a existir, não estando extinto portanto. Hoje, o guitarrista Santana é um dos grandes intérpretes desse gênero em algumas de suas músicas.

Abaixo segue um exemplo da música Sway, na íntegra, em uma versão mais recente:

Sway (2005). Intérprete: Pussycat Dolls

Esta música é, na verdade, uma versão inglesa da música “Quem Será?” (1953) um mambo de autoria do compositor mexicano Pablo Beltrán Ruiz. Por aí já se vê que uma música que originalmente é um mambo, poderia ser dançada mais apropriadamente como um cha cha cha, que vem a ser um subgênero do mambo, juntamente com a Pachanga. Podemos escutar a versão inglesa, na voz de Dean Martin (1954):

E o que causa mais confusão ainda, principalmente no leigo, é a interpretação corporal e “hollywoodiana”  (Hollywood tem por hábito exterminar completamente os conceitos puros em nome do lucro fácil, e vai aí a cultura dos povos junto) realizada pelas próprias Pussycat Dolls no vídeo abaixo. O vídeo é um clipe e bônus inserido no DVD do filme “Shall We Dance?“. Neste clipe as cantoras dançam até mesmo “passos” de tango. Veja só que bagunça a gente costuma ver nesses filmes, o que costuma causar a confusão em quem não entende do assunto. Eu sinto a inspiração e necessidade de explicar essas diferenças, em nome da dança e dos estudos que realizamos nela.

Que fique claro que não estamos a criticar o filme. Ficou bem feito e tem seu valor. Nada desmerece o trabalho de quem atuou nele. Só estamos colocando as coisas no seu lugar, só isso.

É importante saber: as dançarinas de tango até receberem influências das brasileiras que iam para Argentina aprender o tango (e isso já na década de 90) não sabiam o que era “cadeirinha”, coisas que no samba de gafieira bem nosso já se usava muito antes disso. A partir daí elas gostaram desse movimento para shows, inclusive elas começaram a quebrar as “cadeiras” de seu quadril no caminhar do tango, tentando copiar nosso “jeitinho” arredondado de se dançar. A dama, no samba, rebola mesmo, como na lambada também. Podemos dizer que, em uma década, ensinamos às argentinas a dançar tango com movimentos mais suaves e quebrados de quadril. Hoje, isso é uma característica incorporada ao tango.

Antes disso, nosso samba de gafieira incorporou vários elementos do tango, p. ex., as sacadas por aqui viraram tiradas de perna para nós.

Agora vejamos a ginga do cha cha cha, para quem não conhece.

Não é bem mais gostoso este embalo do que um simples bolero em cima daquela música?

A resposta fica para cada um!

Grande abraço e obrigado pela leitura até aqui… em breve traremos mais esclarecimentos.

.

Postado em Dança, Dança de Salão, Pesquisas, Samba de gafieiracom 1 Comment →

Dança de salão: prazer x vaidade?27.jul.2010

por Kenio Nogueira

O que nos move a dançar?

Inicialmente é a vontade, ou melhor, para alguns o desejo de saber dançar . A necessidade de encontrar novas pessoas e fazer amigos para outros.  Timidamente somos atraídos para o universo da dança no intuito de extraírmos, até mesmo inconscientemente, o que de melhor nós temos.

O que pouca gente sabe ou explica, é que ao tentar tirar o nosso melhor, superando nossas dificuldades naturais… o “pior” de nós também sai junto. Nossas incapacidades são jogadas para fora para todos verem e se refletirem nelas. Afinal, as falhas ou incapacidades de uns são muito parecidas com as do coletivo, do grupo.

No mundo humano, temos sempre duas partes que se chocam continuamente: nossas tendências positivas e nossas tendências negativas. Positivas sim, para que nos façam ser cada vez melhor e negativas no sentido de que temos trabalho para lapidá-las e transformá-las em algo positivo.

Na dança encontramos uma poderosa ferramenta que nos coloca em posição de choque entre essas duas tendências.  Por exemplo: é muito comum casais irritarem-se após alguns minutos de tentativas e erros para execução de um passo ou movimento, ou mesmo dançar ao ritmo da música. Por que acontece isso? Na prática um geralmente termina por “acusar” o outro da falha do conjunto. O mais impaciente geralmente culpa e subjuga o esforço do outro.

É fato de que um sempre – num primeiro momento – terá mais facilidade que outro. Este (ou esta) que se enquadra numa posição mais confortável na dança, tem por dever aguardar o desenvolvimento do outro. Do contrário, a ansiedade leva ao desrespeito e ao choque de personalidades, onde um vai buscar no outro os erros do passado, em coisas que geralmente nada tem a ver com o momento em questão.

Cabe ao instrutor ou professor inibir este processo assim que percebido. Uma vez identificado, deve ser erradicado imediatamente através de outras dinâmicas ou mesmo uma forma mais divertida de fazer com que ambos acertem o passo através do prazer.

E assim deveria a dança transcorrer durante toda a vida dos dançarinos, por puro prazer. Um prazer necessário ao corpo humano, à mente e à alma como um todo. Às vezes, o que acontece é o desenvolvimento da vaidade. Esta sim, é o início da ruína para os dois. Podem sobreviver durante algum tempo, mas certamente sua dança será vista superficialmente pelos que mais entendem da arte. É importante o casal transparecer naturalidade, introspecção e sentimento… mesmo numa dança alegre, extrovertida e envolvente como o samba de gafieira, p. ex.

No momento em que o casal passa a dançar para a platéia, ou seja, tendo como objetivo mostrar a dança, deixa de ser por prazer e passa a ser pura vaidade. E, vaidade é uma tendência negativa, certamente. Não que seja “errado”, propriamente dito. Mas que o casal então possa reconhecer esta tendência que se manifesta e, por vontade própria, transformá-la em prazer novamente. A dança deve ter o olhar para dentro, quando desenvolvida pelo casal. A atenção do casal deve estar focada quando muito no outro, no parceiro ou na parceira, para que o respeito seja mútuo e verdadeiro. Eu desenvolvo minha dança para ela e ela me responde desenvolvendo uma resposta para mim, ou vice-versa. A realidade da dança no palco é um pouco diferente, não levemos o mostrar por vaidade ao mesmo entendimento de mostrar pela arte.

Fica então nossa mensagem simples mas difícil de ser cumprida na prática. Muitas vezes um casal dança extremamente bem, mas para fora. O realmente difícil é unir a plástica da dança ao prazer interno de executá-la. Somente quando isto acontece podemos dizer que estamos dançando realmente bem. Mas que isso não sirva de desestímulo, mas apenas de mais um subsídio para comparações e formação de opiniões.

Um abraço a todos…! :)

Postado em Dança, Dança de Salãocom 1 Comment →

  • You Avatar