Resultados da pesquisa Arquivos: novembro 2009

Samba de gafieira, “a dança do corpo” 4

fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena  social carioca. 2005. Salvador, BA

Como referência à dança do samba de salão praticada anteriormente aos anos de 1980, o professor Jimmy de Oliveira nos conta: Se fôssemos voltar dos anos 80 para trás, era uma coisa mais junto, eles saiam pela intuição. Não existia uma mecânica correta, tem que fazer direita atrás e cruza direita à frente, não! Eles saíam pelo que eles sentiam na música e pela mulher que ele estava sentindo, pela parceira dele. E aí que, a dama de antigamente era mais versátil, ela tinha que se virar na piração do cara!

Jimmy de Oliveira quando questionado a respeito de que alguns passos do tango argentino estão presentes da dança do samba de salão apresentado na atualidade, prossegue: “talvez, nas minhas criações, o tango tenha me influenciado, até mesmo inconscientemente, embora eu nunca tenha feito aulas de tango, fiz algumas incorporações e adaptações como, por exemplo, do passo de tango denominado de sanduíche”.

Jimmy de Oliveira ainda nos relatou que as inovações e transformações que ele fez na dança do samba de salão carioca são decorrentes das influências do Hip Hop. Jimmy de Oliveira nos conta: Eu queria fazer um trabalho, que tivesse a minha identidade, o meu nome. Depois de um ano, estudando com um cara da antiga chamado Valtinho, que me dizia: Você tem tudo na dança! A partir do momento que você colar na dama, você vai descobrir uma outra visão da dança. Ele me deu esta dica.

(…) A minha dança foi toda em cima do que dançava, Street dance, dança de rua, eu dançava Mickael Jackson. Foi isso que me modificou, que me fez mudar essa visão, o hip hop. (…) Aí, eu me vejo: um cara que deu uma dimensão para o samba, sabendo que, tinha pessoas importantes, né! É uma hierarquia, né! Eu prá chegar aonde eu cheguei, tinha que ter algum caminho, né!

(…) Quando você chega na zona sul, o cara nunca foi no subúrbio para ver realmente como se dança, um samba arrojado e a malandragem… Finge que cai mais não cai! As coisas têm que ser mais voltadas para o chão, com movimentos mais miúdos. Eu digo sempre assim: a gente tem que pentear o chão. Foi aí que eu resolvi dar uma pitada em algumas coisas e, foi aonde eu comecei a entrar em conflito com o mundo da dança. Tinha gente que falava que era presepada, que eu queria aparecer, ou isto ou aquilo… Então eu criei o Romário, o assalto, a embreagem, a boneca, o pescar, outra variação da cadeirinha, a escovinha, o matrix e… Com o tempo fui colocando as coisas e fui vendo, todas as academias, ensinando na sua linguagem, mas ensinando os meus passos. E, aquilo que diziam que era presepada, que não era samba… Hoje, praticamente em qualquer lugar do Brasil, qualquer profissional que ensine [os passos da minha criação], embora, não ensine no tempo que eu ensino, ele ensina como ele vê, a dança.

Como descrito no depoimento do professor e dançarino Jimmy de Oliveira: O samba tem aquela coisa corporal e não aquela coisa meio européia. (…) Dançar com o corpo parado é muito mais fácil. É muito mais difícil você, mecanizar braço, perna, tronco, cabeça e braço ao mesmo tempo. O samba é malemolente, tipo peixe, você quer pegar e não consegue. O samba é toda uma linguagem corporal. (…) O brasileiro, já tem essa coisa corporal. (…) A nossa qualidade de dança, está no corporal. (…) Eu tento o seguinte: o máximo de trabalho [do corpo] corporal. É assim que eu vejo a cara do samba. É assim que eu vejo o Brasil. (…) Nós profissionais somos formadores de opinião, depende de, como a gente vai passar isso para as pessoas.”

Samba de gafieira, “a dança do corpo” 3

fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena  social carioca. 2005. Salvador, BA

Continuando… Ana Maria também entrevistou Jamie Arôxa, respeitado profissional da dança de salão carioca e conhecido nacionalmente.

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Esta observação fica ainda mais evidente na declaração do professor de dança de salão Jaime Arôxa, publicada no Jornal Dance (1997): “A sociedade ainda não viu a dança de salão como ela realmente é. Ainda há preconceito, a consideram uma dancinha. As pessoas não descobriram que a dança é de utilidade pública. Deveria ter recomendação do Ministério da Saúde. Junto com o ‘Não Fume’, deveria vir ‘Dance Muito’.

(sobre dançar a dois)

O maxixe foi a primeira dança que juntou o homem com a mulher aqui no Brasil. A primeira dança agarrada. O Brasil, digamos, foi o pioneiro nesta idéia de agarrar a mulher, porque até então o homem apenas tocava a mulher. Já, no maxixe o homem agarrava a mulher.

Com relação ao preconceito de uma parte da população carioca com as gafieiras, o professor Jaime Arôxa menciona: Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, pedi para o motorista de táxi me levar a uma gafieira. Ele disse: Não, é perigoso! (…) Eu comecei nos puteiros, depois fui para as gafieiras e fui crescendo, passando pelos salões mais requintados. Sem preconceito, eu adoro todos!

É o próprio Jaime Arôxa, ao fazer referência à inserção de passos de tango na dança do samba de salão carioca, que esclarece o fato de existir uma despreocupação das pessoas no que diz respeito à descaracterização da dança. Arôxa relata: Eu introduzi alguns passos de tango no samba, também me arrependo disso, porque hoje eu sinto que foi usado de uma maneira errada, passou dos limites. Eu vejo que, você pode mesclar um pouco da dança, mas tudo tem um limite. Na hora que você mescla demais, deturpa, ela perde a cara dela e, fica outra coisa. No tango, por exemplo, nunca vai ter passos de samba. O samba vai ser sempre imitação do tango. Ou seja, é melhor a gente não colocar tantos passos de tango no samba.

Quanto à atitude da dança, o professor Jaime Arôxa descreve: É uma dança que exige do cara, que ele pegue na mulher de uma maneira diferente de como ele pega no bolero. Por exemplo, tem que pegar mais: Venha cá, você é minha neguinha. E vamo manda ver prá lá e vamo manda prá cá. E ela: E tal…Você é meu malandro, então vamo nessa. Rola uma coisa de morro do Rio de Janeiro, que quando tem é maravilhoso! (…) Tem o sentimento do samba. No samba dançado anteriormente aos anos 90, as mulheres não tinham condução, eram levadas. As cenas que víamos, eram meio cafajestes… mulher do malandro… e as histórias circulavam em torno do universo do malandro. Era um samba onde os homens mandavam ver com as mulheres e pronto. Eles, não tinham pena, não! Elas tinham que seguir e pronto acabou.

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Continua…

Samba de gafieira, “a dança do corpo” 2

fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena  social carioca. 2005. Salvador, BA

“A coreografia do samba de salão é acompanhada de música em compasso 2/4, com marcação binária e ritmo sincopado. Uma das características da dança do samba de salão carioca é a de ser fundamentada no corpo, nas suas percepções e nos sentidos do corpo. Conforme se vê em Sodré (1979): “O samba é dono do corpo”. O que podemos assinalar nesta pesquisa é a majoritária contribuição dos elementos africanos nesta dança. O samba de salão carioca pauta-se em alguns aspectos tais como a atitude ou caráter, senso do tempo (ritmo sincopado), orientação do espaço e da condução do parceiro.

Entendemos que a atitude e o caráter do samba de salão carioca está essencialmente relacionado à malandragem, ao jogo de cintura, à malícia e a sensualidade do requebrar e do rebolar dos movimentos do quadril e da ginga do corpo. Estes elementos distinguem e diferenciam totalmente o samba carioca das outras danças de salão.

Nesta modalidade de samba, o jogo coreográfico acontece entre duas pessoas, onde o volume ocupado pelo corpo da mulher e o volume ocupado pelo corpo do homem estabelecem o conceito de unidade. Na medida em que acontece a aproximação dos corpos, os dançarinos sentem o peso do corpo e o do parceiro, que geram movimentos por meio de pontos mutáveis do contato entre eles, onde cada um dá suporte ao outro. É onde a gravidade, a atuação da força centrífuga, o equilíbrio, a consciência do eixo e o alinhamento dos ossos obedecem às leis da física.

O prazer desta dança a dois está baseada na sensação do toque e no equilíbrio entre as duas pessoas. É por meio do toque que a informação sobre o movimento de cada um é transmitida; aquele que toca ao mesmo tempo é tocado. A comunicação acontece através do contato, os casais se movem juntos e são guiados pela linguagem sensorial da pele, do peso, do toque, da pressão, da direção e da velocidade.

A partir de uma adequação harmoniosa entre as partes, o prolongamento e ampliação dos corpos dançantes atuam como um centro de forças opostas, devendo estar em equilíbrio e em relação complementar. Acreditamos que o contorno dos corpos dançantes é uma fronteira onde suas partes se movem, se relacionam, se complementam e são envolvidas umas às outras, tornando um sistema único.

Esta nova espacialidade ou topologia do corpo é delineada a partir das relações de aproximação e distanciamento pelo mesmo espaço, surgindo novos desenhos e contornos. Esta ampliação corporal nos traz a idéia de que os corpos são dilatados, evidenciando a formação de um outro corpo, que denominamos de corpo harmônico. Isso se dá a partir das relações de aproximação, distanciamento e redução do espaço entre eles. Para ilustrar esta idéia recorremos a uma obra de arte como, por exemplo, um quadro, onde o homem seria a moldura e a mulher a tela, pois quando observamos rapidamente um quadro, o olhar é focado no quadro como um todo. Assim sendo, a moldura e a tela formam uma totalidade única e dinâmica.”

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Continua…

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