___
pesquisado em http://africaemnos.com.br/wordpress/?p=921, em 28/12/2009, escrito por Denise Guerra
TANGO: DANÇA E MÚSICA DE MATRIZ AFRICANA DO BRASIL À ARGENTINA
A música dos afro-brasileiros se fez entoar nos cantos de trabalho dos campos agrícolas, nas igrejas entre canções e instrumentos europeus com a execução de vozes e mãos afro-brasileiras, uma vez que o contingente de mestiços aqui era bem maior do que o de brancos. Nos batuques à porta das senzalas havia as umbigadas já assistidas por brancos como um espetáculo sem precedentes. Nas cidades, por volta de 1870, as coroações dos reis do congo iniciavam os folguedos do carnaval. Viam-se, na mesma época, cativos carregadores do pesado ritmando seus passos com improvisos e toadas. A cidade do Rio de Janeiro era povoada por africanos e afro-brasileiros a executarem toda sorte de serviços; assim o negro nas ruas, escravos ao ganho, trabalhava e entoava pregões. Os barbeiros da cidade montavam inúmeras pequenas bandas musicais e competiam com as bandas militares que, em seu corpo, também tinham negros e mestiços.
Do outro lado do Rio da Prata, o burburinho era muito parecido com o do Brasil, contudo, o sotaque era mesclado entre africanos, espanhóis, nativos e visitantes. O processo político na Argentina foi bastante complicado e diferente do nosso. A independência de Buenos Aires ocorreu em 1810, a “abolição da escravidão” (entre aspas mesmo) ocorreu em 1813, e,de fato em 1860, quando Buenos Aires se uniu a federação Argentina. Houve também inúmeras batalhas internas ao longo do século XIX entre as províncias argentinas, revelando-nos um caso ímpar.
O valor dado ao negro africano escravizado era o mesmo no Brasil e na Argentina, o de “peça”, mercadoria ou material para mão-de-obra. Todavia, parece que o português foi mais receptivo às misturas raciais, até pelo seu interesse de povoar o Brasil. O argentino ao contrário, forçou a invisibilidade dos africanos empurrando-os para as frentes das inúmeras guerras, deixando-os ao sabor de insalubres recantos com a ameaça de violentas pestes assolando o país, e forçando a miscigenação das mulheres viúvas negras, com os imigrantes europeus brancos que chegavam para trabalhar.

Candombe
Todas estas negações produziram resistências sócio-políticas e culturais. A presença afro-argentina fez-se nos Candombes (festas com dança e música de negros), o negro de lá também esteve nas ruas ao ganho cantando seus pregões. Como todo porto da era colonial, os carregadores do pesado foram inevitáveis cantando e ritmando pela cidade com suas cargas; e mais: bandas de músicos (as murgas), comparsas de carnaval, lavadeiras cantando na beira do Rio da Prata, e os famosos bailes de negros.
Neste misto de encontros e desencontros, após o fim da guerra do Paraguai, em 1870, nasce o Tango, palavra com vários significados desde o latim “tocar, tanger” até a origem africana afirmada por Picotti como vocábulo bantu que quer dizer círculo, reunião, baile de negros, tambor. Outra vertente citada por este autor argentino é que a palavra tango seria oriunda do nome Shangô, o Deus iorubano do trovão.
Segundo a história da música o nosso tango foi registrado oficialmente antes do tango argentino, em 1871, por Henrique Alves de Mesquita com o nome de “Olhos matadores”. O tango brasileiro seria descendente direto dos lundus (primeira música afro-brasileira vinda dos batuques), com as habaneiras cubanas e os tangos espanhóis. Os tangos brasileiros foram criados em sua maior parte sem letras, destinados mais para a dança, embora o grande compositor de tangos brasileiros Ernesto Nazareth afirmasse que seus tangos eram músicas para serem ouvidas e não dançadas.

Continua no próximo post…


A produção cultural dos negros brasileiros, inclusive em função de sua condição servil, foi pouco registrada, pobremente divulgada e apresentada mediante relatos preconceituosos, em geral, referidos pejorativamente pelos visitantes estrangeiros e pelas elites brasileiras como “Batuque de Negros”. No entanto, encontram-se registros impecáveis nas obras do autor Tinhorão sobre as matrizes africanas da música popular brasileira de negros e mestiços. O colonizador logo percebeu que não poderia conter a expressividade dos africanos escravizados, já que para cada atividade exercida havia cantos propiciatórios, batuques e danças, numa espécie de adaptação aos costumes africanos. A interferência das igrejas católicas na vida musical das cidades, a interação sonora dos estrangeiros visitantes e os batuques das senzalas encenavam o caldeamento cultural que estava por vir.
Twitter
Orkut
Facebook
Youtube