por Kenio Nogueira
O que nos move a dançar?
Inicialmente é a vontade, ou melhor, para alguns o desejo de saber dançar . A necessidade de encontrar novas pessoas e fazer amigos para outros. Timidamente somos atraídos para o universo da dança no intuito de extraírmos, até mesmo inconscientemente, o que de melhor nós temos.
O que pouca gente sabe ou explica, é que ao tentar tirar o nosso melhor, superando nossas dificuldades naturais… o “pior” de nós também sai junto. Nossas incapacidades são jogadas para fora para todos verem e se refletirem nelas. Afinal, as falhas ou incapacidades de uns são muito parecidas com as do coletivo, do grupo.
No mundo humano, temos sempre duas partes que se chocam continuamente: nossas tendências positivas e nossas tendências negativas. Positivas sim, para que nos façam ser cada vez melhor e negativas no sentido de que temos trabalho para lapidá-las e transformá-las em algo positivo.
Na dança encontramos uma poderosa ferramenta que nos coloca em posição de choque entre essas duas tendências. Por exemplo: é muito comum casais irritarem-se após alguns minutos de tentativas e erros para execução de um passo ou movimento, ou mesmo dançar ao ritmo da música. Por que acontece isso? Na prática um geralmente termina por “acusar” o outro da falha do conjunto. O mais impaciente geralmente culpa e subjuga o esforço do outro.
É fato de que um sempre – num primeiro momento – terá mais facilidade que outro. Este (ou esta) que se enquadra numa posição mais confortável na dança, tem por dever aguardar o desenvolvimento do outro. Do contrário, a ansiedade leva ao desrespeito e ao choque de personalidades, onde um vai buscar no outro os erros do passado, em coisas que geralmente nada tem a ver com o momento em questão.
Cabe ao instrutor ou professor inibir este processo assim que percebido. Uma vez identificado, deve ser erradicado imediatamente através de outras dinâmicas ou mesmo uma forma mais divertida de fazer com que ambos acertem o passo através do prazer.
E assim deveria a dança transcorrer durante toda a vida dos dançarinos, por puro prazer. Um prazer necessário ao corpo humano, à mente e à alma como um todo. Às vezes, o que acontece é o desenvolvimento da vaidade. Esta sim, é o início da ruína para os dois. Podem sobreviver durante algum tempo, mas certamente sua dança será vista superficialmente pelos que mais entendem da arte. É importante o casal transparecer naturalidade, introspecção e sentimento… mesmo numa dança alegre, extrovertida e envolvente como o samba de gafieira, p. ex.
No momento em que o casal passa a dançar para a platéia, ou seja, tendo como objetivo mostrar a dança, deixa de ser por prazer e passa a ser pura vaidade. E, vaidade é uma tendência negativa, certamente. Não que seja “errado”, propriamente dito. Mas que o casal então possa reconhecer esta tendência que se manifesta e, por vontade própria, transformá-la em prazer novamente. A dança deve ter o olhar para dentro, quando desenvolvida pelo casal. A atenção do casal deve estar focada quando muito no outro, no parceiro ou na parceira, para que o respeito seja mútuo e verdadeiro. Eu desenvolvo minha dança para ela e ela me responde desenvolvendo uma resposta para mim, ou vice-versa. A realidade da dança no palco é um pouco diferente, não levemos o mostrar por vaidade ao mesmo entendimento de mostrar pela arte.
Fica então nossa mensagem simples mas difícil de ser cumprida na prática. Muitas vezes um casal dança extremamente bem, mas para fora. O realmente difícil é unir a plástica da dança ao prazer interno de executá-la. Somente quando isto acontece podemos dizer que estamos dançando realmente bem. Mas que isso não sirva de desestímulo, mas apenas de mais um subsídio para comparações e formação de opiniões.
Um abraço a todos…!

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Ótimo post. Concordo com o escrito.