por HELOISA HELENA LUPINACCI
“Dois para lá, dois para cá” pode ser a regra básica para dançar quase todos os ritmos, mas não o tango. Um pouco mais complicado que a média das danças, o estilo argentino é quase um clichê. Assim como o samba aqui, todos que vão a Buenos Aires querem ver o tango de lá. Mas o programa pode ficar mais interessante se o visitante se aventurar a estar na pele de quem dança.
Virar um dançarino de tango não é simples. Não basta aprender os passos, o tango exige uma indumentária própria, com roupas e acessórios, e uma expressão facial típica, meio fatal, que talvez seja o mais difícil de tudo.
Se a expressão facial requer esforço, comprar os itens das vestes é uma etapa deliciosa da transformação do turista em tanguista.
As lojas especializadas têm como peça de resistência os sapatos. A diferença dos sapatos de tango para os normais é que os primeiros têm saltos especiais: altos, devem assegurar a postura com segurança. Eles têm a sola bem lisa para escorregar no chão e têm, necessariamente, um traseiro, que é a parte que segura o calcanhar. Tudo isso para a dançarina nem pensar em cambalear.
O sapato de tango tradicional possui uma caixa de dedos fechada, como a de um sapato clássico. Uma tira, que sai da traseira, dá a volta no tornozelo. Uma outra sai do meio da caixa de dedos, sobe pelo dorso do pé e chega ao centro da tira do tornozelo.
Existem outros modelos: de bico cortado, que só deixa os dedinhos da frente para fora; tipo sandália, com tiras cruzadas no lugar do bico; de boneca, com tiras trançadas pelo dorso do pé, com as bordas recortadas formando desenhos. Os materiais também mudam: camurça, lamê, pelica, couro, verniz.
Os saltos vão de 6,5 cm a 10 cm, têm a base larga e a ponta fina. Para andar com elegância e dançar com tais calçados, são necessários alguns minutos de treino.
Os sapatos masculinos também têm saltos, de 2 cm a 4,5 cm. Eles lembram os modelos usados pelo nosso malandro: são de amarrar e quase sempre bicolores.
Elegantes e confortáveis, os sapatos podem sair das pistas de dança de tango para se transformar em sapatos comuns.
Muitas lojas fazem calçados sob medida, com o tipo de couro, modelo e tamanho escolhido pelo comprador. O tempo de entrega vai de dois a quatro dias.
Além dos sapatos, é preciso providenciar as roupas. Para as mulheres, saias curtíssimas ou com fendas, pois garantem a liberdade das pernas. Quando a dança surgiu, as mulheres usavam saias longas. Com o tempo, começaram a abrir fendas nelas para se movimentar melhor. As blusas são decotadas e sensuais.
Nas vitrines das lojas também há aqueles cravos que são presos às pernas com fitas, feitos de tecido ou penas. Outro item é a meia sete oitavos de arrastão, um fetiche associado ao tango.
Para os homens, camisas de seda e calças com corte afunilado nas pernas. E, claro, o chapéu, que pode ser basicamente de dois tipos. O chambergo tem abas longas e fica meio de lado na cabeça do homem, cobrindo um dos olhos. Já o funghi, que vem de fungo, possui abas curtas e era mais usado pelos homens da periferia. Um chapéu custa cerca de 100 pesos, e a maioria é de feltro. Mas alguns são feitos de palha, como os do modelo rancho, muito usados nos anos 20, que têm a copa e as abas rígidas.
Nas lojas ainda há regalos temáticos, como jóias, livros e cartazes ligados ao tango. Com a indumentária pronta, o próximo passo é aprender a dançar.

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