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Um breve histórico da dança de salão…

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Olá gente! Eu estava pesquisando, procurando informações para minhas pesquisas e me deparei com um texto bem rico. É de fundamental importância que todos envolvidos com a dança de salão saibam, ao menos um pouquinho, da história, da riqueza que é a cultura deste Brasil. A dança, especificamente a dança de salão, é um amálgama de culturas, de visões e de características onde se pode dizer que tudo está certo, tudo pode e tudo é possível. Basta termos bom senso, pois quem realmente faz as coisas acontecerem é o povo, nós mesmos, dançando nos salões.

O texto é grande, mas vale à pena.

Boa leitura, e deixe sempre seu comentário. É importante para mantermos esta relação! :-P

Kenio Nogueira
Asgar centro de dança

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por Lia Amancio · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2008

Passei anos da minha vida achando que a dança de salão era um reduto de adoradores de Emílio Santiago e senhoras viúvas em busca de uma ocupação, pra variar um pouco além do bingo. Achava que “se você dança de tudo, no fundo você não gosta de nada”. Mordi a língua quando comecei a dançar e conheci gente de todas as idades, pessoas divertidas e que gostam mesmo é de música boa. E continuo com minhas preferências musicais intactas: em casa rola The Clash, no baile rola Adil Tiscatti; em casa berro as músicas do Blur a plenos pulmões, no baile o que mais gosto de dançar é forró. E daí?

Fazendo um resumo bem grosseiro, a história da dança de salão no Brasil remete a séculos anteriores, quando a valsa e a polca chegaram em Terra Brasilis por pés europeus, criando o hábito da dança a dois – mas foi em 1914 que Madame Poças Leitão aportou em São Paulo para ensinar a dança de salão aos brasileiros. Até então, se aprendia dançando. Fora dos finos salões de dança, o maxixe e o xote eram danças sociais bem populares (e coisa de gente pouco educada, vê se pode!). A diversidade de ritmos que já existia no início do século XX começou a formar diferentes correntes da dança a dois: do porte clássico do tango argentino às acrobacias do lindy hop – que, como o próprio nome entrega, na alusão ao vôo de Charles Lindbergh pelo Atlântico, introduziu os passos aéreos na dança (mas em seus momentos mais calmos, o lindy hop não tem nada de acrobático, e é bem gostosinho de dançar). A partir dos anos 40, as estações começaram a se misturar: O samba, que até então era um ritmo bem popular, restrito ao carnaval, às rodas de partido alto e ao rádio, ficou irresistível até mesmo para os familiares salões de baile. Tocado por orquestras, deu origem ao samba de gafieira: uma dança limpa, sem malícia. Ou melhor, com pouca malícia. Porque ninguém resiste a um samba bem dançado, uma condução firme…

Acontece que, enquanto aqui a dança a dois era uma dança entre casais, para casais, e se dançava coladinho, lá fora a coisa já pegava fogo: as flappers nos anos 20 já não faziam questão de cavalheiros para dançar um charleston arretado, o jazz dos anos 30 e 40 era uma música selvagem, jovem, considerada revolucionária (e até comunista!!), e dançar a dois era um hábito, sim, mas com passos abertos – e não necessariamente com sua mulher, o que dava margem à troca de parceiros (swing, troca de parceiros, pescou? Pescou?). Lá pelos anos 50, o rock’n'roll ainda era dançado a dois – mas não necessariamente. No Brasil, veja bem, a bossa nova não era exatamente a música mais dançante do mundo – das músicas de fossa, então, nem se fala! O twist dos anos 60 matou a dança a dois de vez, a Gafieira Estudantina fechou suas portas (mas já reabriu, não se preocupe!) e a moda da discoteca foi a pá de cal, a missa de sétimo dia da dança a dois – mas, que bom, focos de resistência continuaram aqui e ali, sobrevivendo na dança popular dos subúrbios, nos senhores e senhoras que freqüentavam os salões de baile e mantiveram o hábito da dança social como era no princípio. Talvez por isso você ainda ache que dança de salão é coisa de velho

…e era mesmo. Durante um bom tempo, a dança de salão/dança social foi considerada brega e fora de moda. Lá fora, a ballroom dancing não era exatamente uma dança social, mas uma dança de competição. Aqui no Brasil, a novela ‘Pai Herói’ chegou a ter algumas cenas gravadas na Gafieira Elite, a Estudantina reabriu no finzinho dos anos 70 e a pioneira Maria Antonietta continuava firme e forte, desde os anos 40, dando aulas no Rio de Janeiro (ainda que a procura não fosse das maiores). Maria Antonietta, aliás, dança ainda hoje, com mais de 90 anos de idade (mantive a integridade do texto, no entanto, Maria Antonieta faleceu em 07/04/2009, veja mais informações aqui. N.C.). As danças a dois, no entanto, sempre estiveram ali, cada dia com mais adeptos, mas o eixo Rio-São Paulo desconhecia o forró, o carimbó e outras danças divertidíssimas do Norte e Nordeste do país – que, na era pré-internet, só indo até lá pra conhecer.

Anos 80/90

Os anos 80 trouxeram alguns grandes fenômenos que popularizaram e consolidaram de vez a dança de salão como ela é hoje:

- Em 1987, o filme Dirty Dancing botou a dança de salão novamente na ordem do dia. Patrick Swayze e Jennifer Grey eram Fred e Ginger numa versão atualizada e muito mais romântica (porque Fred e Ginger, vocês lembram, sempre começavam os filmes se desentendendo!). A dança de salão voltou a ter seu charme. Ainda meio cafoninha, mas eu sei que você já dançou muito ao som da música-tema do filme, posso apostar.

- A verdadeira dirty dancing, no entanto, foi a lambada. Filha do carimbó e sobrinha do merengue, a lambada explodiu Brasil afora graças a um empresário francês que soube transformar o grupo Kaoma num sucesso nacional em 1989. Sucesso internacional, até. E aqueles dois gurizinhos dançando lambada no clipe, bem, a verdade é que qualquer um podia dançar. Mas… onde aprender a dançar fora da Bahia?

- Ninguém discorda do caráter lançador de moda das novelas. Hoje, em 2008, temos trocentos canais de tv a cabo, Youtube bombando e a Record investindo na teledramaturgia com a mesma qualidade técnica da TV Globo – mas no final dos anos 80 e início dos 90, deixa eu te relembrar como funcionava: o SBT importava novelas mexicanas, a Globo dominava o mercado e a TV Manchete, embora não tivesse a mesma audiência, se esmerava em suas produções que não tinham o ‘padrão Globo de qualidade’, mas cativavam pela fotografia, direção e temas diferenciados do universo atual e urbano da líder. Foi assim que, em 1989, a novela ‘Kananga do Japão’, dirigida por Tizuka Yamasaki e protagonizada por Raul Gazzola, retratou o universo das gafieiras nos anos 30 – e tornou conhecidos os trabalhos de Carlinhos de Jesus e Jaime Arôxa (ambos discípulos da veterana Maria Antonietta), por causa da abertura de extremo bom-gosto. Coincidentemente, 1989 foi o ano da lambada no Brasil e a procura pela dança de salão começou a aumentar.

Em 1992, o assunto voltou à baila (com trocadilho! Ha!) na telinha com a novela ‘De Corpo e Alma’, estrelando a esposa de Raul Gazzola, a dançarina Daniela Perez. Sua mãe, Glória (por sinal, autora da novela), deve ter achado interessante retratar sua filha no universo que já lhe era familiar: e tome Daniela dançando! O drama folhetinesco dos bastidores da novela (todo mundo se lembra do assassinato de Daniela por Guilherme de Pádua, que fazia seu par romântico na novela, não lembra?) rendeu mais homenagens à dançarina e atriz, que freqüentava a Gafieira Estudantina. O poder das novelas (principalmente as do horário das 20h) era tão grande que ‘De Corpo & Alma’ levantava a questão dos transplantes de coração e, logo na semana de estréia, nove doadores apareceram no INCOR de SP, depois de meses sem doações. Pra você ver…

No mesmo ano, durante a ECO 92, a Estudantina serviu de cenário para um documentário da CNN que estrelava Maria Antonietta. Pronto. A confluência de fatores favoreceu ainda mais a procura por aulas de samba de gafieira e lambada – e, além dos já conhecidos Arôxa e Jesus, outros dançarinos, grupos (como a Cia. Aérea de Dança, do Circo Voador) e academias finalmente voltaram a encher – e hoje em dia a dança de salão carioca vai muito bem, obrigada.

Concorrência saudável

Jaime Arôxa e Carlinhos de Jesus. Dois estilos bem diferentes, duas formações bem diferentes – Arôxa criou sua própria metodologia e levou para suas aulas elementos da dança moderna e posturas clássicas; Jesus é roots, começou como passista, sambista e aprendeu a dançar nos bailes de subúrbio. Se a “rivalidade” entre os dois realmente existe, só mesmo eles para dizer. Para quem quer aprender a dançar, a possibilidade de escolha entre linhas bem diferentes (e várias outras, menos conhecidas, mas não menos peculiares – o samba do Jimmy de Oliveira, por exemplo, você reconhece de longe!) é muito saudável e garante a diversidade dos bailes do Rio de Janeiro. Quem sabe se adaptar a parceiros de diferentes escolas e procedências não cria vícios e tem, obviamente, mais chances de dançar bem com mais pessoas.

O currículo básico da dança de salão compreende o bolero (costuma ser o primeiro ritmo ensinado, já que é mais lento e, assim, fica mais fácil entender a dinâmica de condutor/seguidor), o samba (sempre um sucesso no Rio de Janeiro) e o soltinho (também chamado de ‘swing brasileiro’, uma simplificação extrema do swing americano e apropriada para músicas pop mais ou menos modernas). Há quem ensine forró (e baile de dança de salão sem cortina de forró não existe!), salsa e zouk. Há quem ensine swing americano e rock’n'roll. O universo do tango costuma ser um universo à parte, com bailes exclusivos deste ritmo. Quem quer dançar não tem desculpa: sempre tem um baile rolando em qualquer bairro e horário (o Baile do Meio-Dia, toda 6a feira no Centro Cultural Carioca, de 12h30 às 15h, é um clássico obrigatório, sempre lotado, onde iniciantes se misturam aos dançarinos cascudos que vêm de todas as partes da cidade – vale a pena dizer pro chefe que passou mal na hora do almoço, só pra dar um confere!).

Imagine um universo onde as pessoas bebem pouco (se passar de dois drinks, fica impossível fazer um ‘S’ no bolero!), raramente fumam (o cheiro afasta os pares não-fumantes, o fôlego diminui consideravelmente, além dos bailes serem em lugares fechados), tudo começa cedo (em horário de happy hour) e termina a tempo de pegar o último metrô, a educação impera (códigos de etiqueta, ‘Estatuto da Gafieira‘, um certo machismo que se confunde saudavelmente com cavalheirismo) e há um respeito aos limites de quem dança contigo.

Parece o paraíso.

E, pra ser sincera, estou nessa há quase um ano e nunca ouvi Emílio Santiago num baile…

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