Trago o texto abaixo, escrito e muito bem escrito por Isabel Marques, com os devidos créditos e currículo logo no final do texto, porque aquilo que é bom, bem e belo deve ser propagado. Então, com as devidas citações à autora, reproduzo um artigo que é de interesse para toda comunidade de dança, que pratica, trabalha e apenas se diverte com ela.
Aos profissionais da dança, alguns pontos para se pensar e meditar. Além de rever, aplicando novas estratégias por meio de uma consciência maior de nosso trabalho. Aos praticantes, os cuidados necessários aos se procurar um profissional da dança, vejam suas qualidades, sua experiência, sua constante atualização. E, aos que apenas se divertem com a dança, zelem por uma boa diversão e de preferência, que tenha qualidade e cumpra os objetivos a que se propôs.
___
“Mais raro do que encontrar um Projeto Social que não ofereça dança entre suas atividades é encontrar no corpo de profissionais desses projetos somente graduados licenciados em Dança. Projetos, ONGs, Institutos e Fundações que atualmente tomam como ação social a arte e, especificamente, a dança, nem sempre empregam profissionais graduados e licenciados em Dança para desenvolver, coordenar e ministrar as aulas de dança. O primeiro motivo, obviamente, é numérico, mas não podemos nos apoiar no pequeno número de graduados licenciados em Dança no país para justificarmos a ingenuidade com que esta questão ainda é levada.
Diante disso, entendo ser fundamental que se discuta mais profundamente algumas nuances que envolvem essa questão. Pretendo nesse artigo dialogar com os leitores no sentido de construirmos alguma reflexão – mesmo que não seja conclusiva ou completa – sobre esse assunto. Podemos iniciar essa reflexão com duas perguntas:
Como se dão os processos de ensino e aprendizagem da dança fora da escola ou do período escolar (leia-se: nas ONG’s, Institutos, Projetos, etc)?
Em que medida deveríamos ter mais rigor e mais cuidado com este aprendizado se comparado ao que pode ser oferecido na escola?
Além do lazer
Para a maioria da população a dança ainda é somente uma diversão: forrós, festas, danceterias, espetáculos, carnaval e danças na TV. Dança é uma forma de lazer e diversão entre nós. Privilégio brasileiro, privilégio da dança brasileira, privilégio do brasileiro e do Brasil ter a dança tão presente no seu cotidiano, no seu calendário de festas e no modo de ser de sua cultura. O lazer é, justamente, uma das funções sociais da arte/dança, mas será só isto?
Dança é arte, forma de conhecimento, linguagem que propõe e desenvolve significados por meio de signos próprios, dança é uma forma de pensamento. Dança é uma forma de crítica, de leituras de mundo e de transformação social.
Ensinar a dançar engendra ensinar formas de pensar, de criticar, de ler e de atuar no mundo em que vivemos. Pensar a forma como ensinamos dança implica estudarmos a forma como propomos esses pensamentos, críticas, leituras e ações no corpo e por meio do corpo. Portanto, devemos tratar o ensino de Dança com o mesmo respeito e responsabilidade com que tratamos outras formas de educação e de proposição de discursos (jornalismo, propaganda, discurso político, leis, programação de TV, curadorias etc).
Quando patrocinadores e gestores de Projetos Sociais concebem a dança somente como divertimento e lazer podemos prever sérias implicações na forma como desenvolverão os projetos de dança em suas entidades. Sendo concebida como lazer e divertimento somente, o ensino dessas danças provavelmente prescindirá de profissionais graduados licenciados em Dança e ficará provavelmente a cargo de brincantes, praticantes e dançantes sem preparo, reflexão e prática-orientada de sala de aula.
Dança é também profissão
A primeira implicação de entendermos a dança somente como entretenimento é não compreendermos – muito menos valorizarmos – a dança e seu ensino como profissão. Para os ingênuos de um modo geral, as apresentações e as aulas de dança são somente uma “curtição” dos artistas, afinal “dançar é tão gostoso!”. Associar e aceitar o trabalho como prazer ainda é uma dificuldade reinante em nosso país.
Claro que esse olhar ingênuo que vê o artista ou professor contentes e satisfeitos somente em compartilhar seu trabalho com o público pode esconder também inominável má-fé e exploração pura e simples. O prazer e a satisfação com o trabalho sugerem a gestores, administradores e empresários o direito de pleitear para sua entidade entradas gratuitas nos espetáculos, barganhar cachês ou propor não pagá-los, expor o professor de dança a condições precárias de trabalho e muitas vezes sem pagamento. Essa barganha é o lado visível do iceberg da falta de respeito, da desvalorização e do não reconhecimento da arte como profissão. Essas barganhas são o lado visível da moeda da negação da função social da arte.
Algumas vezes, nós, artistas e professores, contribuímos com essa realidade – talvez movidos mesmo pelo “amor à arte”. Nem sempre nos comportamos como profissionais no sentido estrito da palavra. Quantas vezes nos conformamos com a falta de infra-estrutura para dançar e ensinar? Quantos professores de Dança não ensinam como “bico”? Quantas vezes aceitamos apresentar espetáculos gratuitos ou com cachês ínfimos em troca de uma suposta divulgação? Quantas vezes não nos submetemos a apresentações e aulas sem contrato? Quantos e quantos projetos não apresentamos sem que nos paguem – como pagam aos arquitetos, advogados e engenheiros – para que depois sejamos dispensados e nossas idéias aproveitadas com/por outros profissionais?
Ao contrário do que pensaria o senso comum, considerar a dança como profissão não significa tirar-lhe o “glamour”, o prazer, a “curtição”, a “gostosura”; muito menos lhe dar aspecto seco, sisudo, frio, “sem coração”, financista. Entender a dança como profissão é defender cada vez mais a qualidade, o compromisso, a ética e a responsabilidade diante desta forma de lazer e de conhecimento. Acima de tudo, entender a dança como profissão é exigir e estabelecer relações profissionais com aqueles que trabalham com dança. É respeitar o público e oferecer-lhe algo digno, consistente, transformador.
O brincante, o artista e o profissional da educação
A segunda questão, bem mais séria e comprometedora, é achar que qualquer pessoa com “vivência cultural” (brincantes e praticantes da dança) ou “fluente” em alguma modalidade de dança (balé, danças populares, hip hop etc) está preparado para ensinar dança. A falta de profissionalismo na área de ensino de dança tem gerado e incentivado artistas e brincantes a ensinar dança dentro ou fora da escola sem que tenham qualquer preparo, reflexão ou trabalho voltado para a educação.
Exemplos bem próximos de nossas lembranças são os projetos “Amigos da Escola” e “Escola Aberta” (desenvolvido nos finais de semana por voluntários dentro das escolas) e inúmeros centros comunitários, institutos filantrópicos, ONGs que oferecem dança para seu público sem o menor rigor em relação ao “professor” escolhido para tal função.
Permitam-me discordar um pouco da noção defendida há anos por Rubem Alves de que na escola devemos ter educadores e não professores. O autor produz com esse raciocínio uma perigosa cisão entre educar e ser professor, entre o que se pensa educador e o que se formou professor, entre a valente intuição e bom senso do educador e o profissionalismo do professor. Divisão ingênua, injusta, desnecessária e perigosa. Concordo com o respeitável estudioso quando afirma que precisamos de educadores, mas não excluo daí os professores, antes os convido e convoco-os: o professor é o profissional da educação.
Penso que qualquer profissional comprometido com a questão social e com o conhecimento é um educador. O médico que informa, ouve, dialoga, é um educador. O advogado que explica, informa, ouve, dialoga, é um educador. A mãe que se preocupa e dialoga com seu filho, que partilha decisões sobre sua alimentação, estudos, atividades, também é uma educadora. Porém, há um tipo específico de educador, aquele educador que se preocupa com as questões de ensino-aprendizado propriamente ditas, este é o professor; o profissional da educação. Cabe ao professor, é sua responsabilidade pensar as questões e os processos de ensino-aprendizagem – e isso não faz necessariamente parte da formação do brincante, do praticante ou do artista de dança.
O fato do professor ser um educador profissional não o faz necessariamente “chato”, “enfadonho”, sem “graça”, “careta”, mas ao contrário disso, compromete-o como as ações de ensinar e aprender de forma intencional, sistematizada, crítica, problematizadora e prazerosa. É justamente isso que diferencia o professor profissional do brincante que ensina ou do artista que ministra aulas de dança. Os primeiros – professores profissionais – tem como função social trabalhar, refletir, criticar e transformar as situações de ensino-aprendizado em dança ao inseri-las no contexto social.
Sempre almejei – e continuo defendendo isso – que o professor profissional de dança deve ser antes de tudo um brincante, um pratiante e um artista, um fruidor de dança. Somente desta forma poderá o professor ser capaz de compartilhar com seus alunos a arte de dançar e a importância de fruir dança (veja Marques, 1999, 2003). No entanto, somente a vivência cultural e/ou a experiência artística não são suficientes para trabalhar com os processos de ensino e aprendizado da dança de forma crítica, contextualizada, elaborada, criativa e significativa para os alunos. O professor de dança precisa brincar e produzir arte para não descaracterizar a forma de ser da arte da dança, mas precisa, no ato de ensinar, ir além desse pressuposto.
A outra face dessa mesma moeda são diretores de Escola, gestores de Institutos e de Projetos Sociais. Desavisados em relação ao ensino de arte, muitos deles acham “moderno” e “diferente” chamar artistas sem preparo ou reflexão educacional para ministrar aulas em suas escolas e/ou desenvolver projetos de formação de professores. Em geral, abrem mão da qualidade e da competência educacional em prol do suposto “status” que o “artista” confere ao estabelecimento de ensino. É chique, elegante e glamouroso convidar o artista; é pobre, convencional e sem graça chamar o professor profissional. Muitas vezes diretores e gestores apostam cegamente na “intuição” e na “sensibilidade” – nos “belos olhos” – dos artistas para formar e constituir quadros para o ensino de dança em suas instituições.
Comprometem, assim, de forma significativa, até mesmo seus próprios projetos pedagógicos. Esquecem-se esses responsáveis – ou ignoram o fato – de que as relações pedagógicas em seu sentido mais amplo, os princípios que norteiam uma educação crítica, problematizadora, imaginativa e participativa, não fazem necessariamente parte da formação do artista, muito menos do brincante ou do praticante que vivenciam a dança somente em manifestações de rua ou em festivais. Quando muito, esses artistas, praticantes e brincantes receberam cursos em instituições que sangram a verba pública para a Educação formando formadores somente por meio de vivências – sem reflexão e crítica pedagógicas.
As chances dos brincantes, praticante e artistas caírem tanto no tradicionalismo pouco reflexivo quanto no ultrapassado laissez-faire são imensas, pois foi assim que em geral aprenderam dança – copiando ou fazendo intuitivamente – sem pesquisa educacional, sem reflexão pedagógica, sem leituras específicas e atualizadas, sem preocupação com as relações que se estabelecem entre a arte, o ensino e a sociedade contemporânea.
Escolas, institutos, ONGs e fundações
O terceiro ponto a ser levantado é o papel do ensino de dança em instituições e estabelecimentos que não sejam os escolares formais. Acredita-se muitas vezes que se as reflexões pedagógicas adentrarem os muros destas instituições elas se converterão nas escolas detestáveis das quais os alunos fogem, não gostam, não freqüentam. No entanto, quer queiramos ou não, Institutos, Projetos, Fundações, Casas de Cultura tem um papel educacional importantíssimo que precisa, sim, ser pensado à luz da Educação. Ingenuamente, muitos gestores desses institutos afirmam que “não somos escola, não precisamos de pedagogos nem professores formados”. Descontada a má-fé de muitos que se aproveitam da informalidade, esse raciocínio revela desconhecimento e preconceito desses gestores em relação à Educação formal.
Todos sabemos que grande maioria das escolas precisa mudar para deixar de gerar esse tipo de preconceito. Sabemos, que os professores precisam se reinventar enquanto profissionais para voltarem a ter respeito. Que a Pedagogia precisa se ampliar e encontrar a Arte. Que os pedagogos precisam sair dos muros da escola e dialogarem com o mundo real permitindo assim que a escola recupere o seu século de atraso. Nada disso é novo ou desconhecido. Mas há evidente perigo em desvincular o ensino de dança ou de qualquer outra área de conhecimento das reflexões e responsabilidades que os profissionais da Educação tem em relação aos processos de ensino-aprendizagem.
O fato do conhecimento ser trabalhado na escola, ou por profissionais da Educação, mas, principalmente, pela escola, não o atrela necessariamente à falta de imaginação, de jogo, de ludicidade, de relações significativas com o mundo em que vivemos. A escola não precisa ser escolarizante e sem sentido, muito pelo contrário. Precisamos, é claro, repensar o papel das instituições de ensino, mas acreditando que a escola que temos pode ser transformada.
O que não podemos mais é sermos ingênuos a ponto de acharmos que brincantes, praticantes e artistas que ensinam dança não precisam de orientação, formação e acompanhamento tanto na área artística quanto educacional ao desenvolverem seus trabalhos dentro ou fora das escolas.”
(os grifos são nossos)
____
Sobre a autora:
ISABEL MARQUES é diretora, coreógrafa, Pedagoga pela USP, Mestre em Dança pelo Laban Centre for Movement and Dance, Londres, doutora pela Faculdade de Educação da USP, com trabalho de ensino, pesquisa e dança internacionalmente reconhecido. Fundou e dirige o Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Criou e dirigiu Caleidos Arte e Ensino, em São Paulo (2001-2008). Atualmente, com Fábio Brazil, é diretora do Instituto Caleidos, fundado em 2007.

