Resultados da pesquisa Tag: evolução do samba de gafieira

Afinal, o que é “Samba de Gafieira”?

por Kenio Nogueira

E aí gente da dança de salão! :)

Veio-nos a oportunidade de falar um pouco sobre o samba de gafieira. Afinal, o que vem a ser este “bicho”? Muito se fala dele e nele, mas o que notamos é que há uma distância muito grande entre a coisa em si, a prática desta coisa e as pessoas que o praticam hoje.

Primeiramente, samba é samba. Aí vem outros falarem nas suas subdivisões, que não aprofundaremos neste estudo, mas só para citá-los:

  • partido-alto, samba-exaltação, samba-canção, samba-enredo, samba-choro, samba-sincopado, samba de breque, bossa nova, samba-pagode, samba de moderno partido, sambalanço ou samba swing, samba-reage e samba-rock.

Essas nomenclaturas referem-se ao samba enquanto música.

O samba de gafieira tem esse nome porque originalmente era dançado em cabarés, clubes e gafieiras localizados no subúrbio carioca, em bairros onde, atualmente, estão as escolas de dança de salão mais conhecidas. É importante ter-se em mente que a gafieira é apenas o local onde esse samba surgiu, no qual eram tocados também outros gêneros musicais como bolero e swing, dentre outros.” (PERNA, 2005)

A alta sociedade da época era realmente avessa à música do povo. Naquela época, estamos falando da década de 40, começa a surgir então um movimento muito forte no mundo, que influenciou e até hoje influencia, a música ocidental e agora a oriental. O movimento Swing.

A explosão do swing foi algo inimaginável para os dias de hoje. Mas na época repercutiu na composição de quase todas as bandas ocidentais. Era a época das Big Bands. Bandas musicais onde o número de componentes ultrapassava facilmente dez elementos. Havia uma saudável concorrência entre elas no momento dos bailes, uma querendo tocar melhor do que a outra. Muitas vezes no mesmo baile haviam duas bandas propositadamente dispostas em dois palcos antagônicos. Quando uma terminava de tocar, já começava a outra, como dois grandes duetos no salão. E os dançarinos freneticamente dançando… Foi no bairro pobre do Harlem, em New York, mais precisamente no Savoy Ballroom, onde os negros divertiam-se com sua dança, que a partir de 1927 foi denominada de Lindy Hop. O Savoy Ballroom funcionou de 1926 a 1958.

Pensilvania 6-5000 (Glen Miller Orchestra)

A característica principal desta música era a presença dos metais, tipicamente reconhecidos no jazz, como o saxofone, p. ex. Mas na verdade o jazz é um gênero musical, até onde pudemos pesquisar, extremamente genérico e que engloba diversos outros gêneros. É como nosso samba, que tem outras pequenas subdivisões, como citamos acima, compreendendo que tudo é samba. Assim, fazendo uma analogia, tudo é jazz. Para se entender de forma mais simples.

Ora, e qual é a característica marcante da música jazz? O improviso musical.

E qual seria então, como reflexo lógico e natural, a característica marcante da dança, swing? Também, o improviso.

Mas o que tem a ver o jazz, o swing, etc como samba de gafieira? Tudo!

Notemos que, nos salões de baile brasileiros se dançava bolero (também muito em evidência na década de 40), swing (por influência direta norte-americana) e também nossos gêneros nacionais: samba-canção, samba-batucada e samba-liso. Essas eram as três formas de se dançar o samba de salão no Brasil até a década de 1940, segundo Foraciari (1950).

Samba-canção era uma dança de dois movimentos por compasso;

Samba-batucada era uma dança com três movimentos por compasso, baseado no samba-canção;

Samba-liso era uma dança de quatro movimentos para dois compassos, sendo totalmente diferente dos outros dois.

Podemos perceber sua letra triste, até mesmo depressiva em alguns momentos, mas falando de amor. Era característica do samba-canção e até mesmo de um samba “embolerado”, se podemos dizer assim.

Na década em questão, 1940, o swing começa a influenciar o nosso samba. Com isto ele toma a seguinte forma audível:

Neptuno (Raul de Barros, 1958)

Raul de Barros foi um dos grande intérpretes e com as características básicas de um samba de gafieira genuíno. Nota-se claramente a influência dos metais na música, uma ginga mais própria nossa, de nossas raízes e uma bem maior alegria na sua execução. Todas essas características foram ter à dança, que daí sim começou a ser desenvolvida como samba de gafieira que conhecemos hoje.

Por dentro das décadas de 1950, 1960 (eclosão do movimento bossa nova no Brasil) e passando pelos anos 1970 (das discos) até chegar aos dias de hoje, o samba de gafieira foi-se tranformando. Principalmente com a queda das gafieiras, após os anos 60, a dança foi ficando esquecida e deixando de ser praticada nos salões, pelo menos da forma massiva como era. Sobreviveram poucas gafieiras, restritas claro, ao Rio de Janeiro.

Gafieira Elite, Rio de Janeiro

..

Gafieira Estudantina, Rio de Janeiro

.

Gafieira Lapa 40º, Rio de Janeiro

.

E para finalizar esta pequena pesquisa, segue um áudio de um samba de gafieira bem atual. Notem que já temos aqui muita influência de outros estilos, que já vieram com a evolução tecnológica, como guitarras, mas persistem os metais… poderíamos até dizer que seria um samba de gafieira com um toque de samba rock (?)

Reza Forte (banda Sandália de Prata)

No próximo post falaremos um pouco mais da dança: samba de gafieira.

Um grande abraço a todos  e vamos dançar!!! :)

.

Samba de gafieira, “a dança do corpo”

fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena  social carioca. 2005. Salvador, BA

Eu alterei um pouco o título original do trabalho. Isto porque vou publicá-lo em “pedaços”, pois originalmente compõe a dissertação de mestrado de Ana Maria de São José (SAMBA DE GAFIEIRA: CORPOS EM CONTATO NA CENA SOCIAL CARIOCA), da Universidade Federal da Bahia, pelo programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (2005).

Achei mais apropriado publicar partes do trabalho, de forma que coubesse no contexto deste blog e para melhorar a leitura de vocês, tornando-as mais ágil. Mas o trabalho é muito interessante e merece ser lido na íntegra. Pura cultura brasileira.

E, para iniciar essas postagens, vou direto para os comentários, altamente elucidativos, dos grandes nomes da dança de salão no Brasil de hoje. Apesar de faltarem alguns, em muito importantes também, aqueles que Ana Maria entrevistou já rendeu uma boa coletânea que reproduzo a partir de agora.

___

A partir dos anos dos anos de 1980, a interferência de outras culturas no ambiente da dança de salão carioca, tem favorecido novas reconstruções culturais, até a inserção de passos do tango argentino na dança do samba de salão carioca. Consideramos que o turismo pode ser apontado como fator de mudanças na dança de salão e conseqüentemente no samba de salão carioca.

As pessoas foram atraídas pelo tango, os ambientes das milongas na cidade de Buenos Aires ficaram repletos de dançarinos e professores brasileiros. Constatamos que o samba dançado por muitas pessoas pelos salões de dança carioca, hoje, é bem semelhante e contém inúmeras figuras do tango argentino. Os depoimentos, de uma maneira geral, indicaram que a dança do samba de salão na contemporaneidade sofreu algumas alterações, transformou-se com a incorporação de alguns passos do tango argentino.

É comum ouvir dizer que o samba hoje em dia está mais tangueado ou tangado. A freqüentadora Venina da Silva, 77 anos, ex-rainha da Estudantina Musical no ano de 1981, nos relata que “a dança de gafieira mudou muito. Ela é muito coreografada, parece mais uma dança de palco do que de salão”.

Sobre outra ótica, o coreógrafo João Carlos Ramos relata:

Esse purismo, está me cheirando a nazismo. Hitler, que queria conservar uma raça pura! O Brasil, é isso: é mistura. O brasileiro se interessa pela mistura e pelas novidades. Eu acho tão lindo, quando as pessoas vão ali pro salão e colocam passos de tango no samba. Eu acho maravilhoso, porque ele está pesquisando, está se desenvolvendo, ele está vendo se dá certo. Pelo menos, ele está tendo uma “ousadia”, enquanto outros, querem deixar a coisa no seu conforto. Um cara “da antiga”, digamos: ele vai combater porque? Por um lado, ele não concebe aquilo na cabeça dele e por outro lado o corpo dele também, não tem tantas possibilidades, como tem um garoto de 17, 18 e 22 anos. Na realidade, os jovens sempre foram discriminados no salão. Agora, ao meu ver, o que aconteceu é que a rapaziada que está produzindo dança de salão, não soube lidar com isso. Eu acho que é preciso estudar, obter ferramentas, para que se possa desenvolver qualquer manifestação a nível acadêmico, porque popularmente o povo se incumbe disso. Se a gente quer, que a dança de salão tome um novo rumo e ocupe um lugar, os profissionais vão ter que adquirir, uma formação. Eles aprenderam os passos muito bem, mas ficou nisso… Os bailes agora são nas academias, antigamente a troca era feita no salão. Na minha opinião, a mistura é até boa.

Prosseguindo:

(…) Mas a minha preocupação é estar coerente com o samba. Que o afro está ali por trás, que a negada está ali! (…) O corpo, tem que estar lá e cá, como no embalo do mar. Samba? Samba é improviso.

[...]

SAMBA DE GAFIEIRA:
CORPOS EM CONTATO NA CENA SOCIAL CARIOCA

Além da inserção dos passos de tango, observamos variações na coreografia do samba de salão carioca, vindas das inúmeras criações do professor-dançarino e coreógrafo Jimmy de Oliveira. Estas contribuições podem ser vistas nos diferentes salões de dança carioca e em outros salões de dança no Brasil.

O coreógrafo João Carlos Ramos relata:

Resgatou-se aquela maneira de dançar o samba coladinho, estiloso. O Carlinho de Jesus, eu diria, que foi um dos responsáveis pela volta da figura do malandro, aquele que está no inconsciente coletivo das pessoas. Eu mesmo comecei a fazer dança de salão em 87, eu já recebi isso e fui transformando isso, na minha maneira mesmo. Eu trouxe isso pro campo da companhia de dança. O Jimmy prá mim é um dos estilos mais significativos na história destas décadas de 80, 90. Ele transformou completamente a estética da dança de gafieira, do samba que se dança a dois. (…) Gerou o Bolacha. Porque o Bolacha, ele faz o equilíbrio, que eu diria assim… Não perfeito, mas ele faz aquele estilo do malandro mais antigo, calça de linho, o sapato… Mas a camisa, você vê que é assim tipo dos dias de hoje. E a mão, é aqui, [mostra a mão no alto das costas] colada na dama. Tem uma interferência do funk, porque ele vem da escola do Jimmy. Ele sedimenta mais, como se tivesse ancorado ali com ele. O Carlinho, o Valdeci e outros mais…

[...]

Nessa mesma direção, Geertz (1989) coloca que é impossível pensar a natureza humana como exclusivamente biológica e desvinculada da cultura, constitui-se uma relação interativa entre eles, ou seja, é a própria cultura que dá o caráter de humanidade a esta espécie animal. A esse propósito, o coreógrafo João Carlos Ramos diz: “quer falar de cultura, deixe o corpo se expressar”.

[...]

Sobre o jeito de corpo, a postura e a malandragem que devem estar constantemente presentes na dança do samba, em entrevista, o coreógrafo e professor João Carlos Ramos diz: “Eu pesquiso o universo do samba e a gafieira está inserida neste universo. (…) Tem gente que quer dançar samba mais não quer ser confundido com crioulo. Aí, eu sei como é que é…Você tem que saber o que você quer dançar. Tem uma coisa que é samba, tem uma coisa que é valsa!”

[...]

Ao freqüentar a noite carioca e os diversos ambientes culturais, constatamos a imensa procura dos jovens pela musicalidade do samba. Novos grupos de músicos e bandas são formados com a participação de jovens, que também são presenças marcantes pelos espaços culturais tais como a Casa da Mãe Joana, o Antiquário Rio Scenarium, o Centro Cultural do Rio de Janeiro, o Carioca da Gema, Dama da Noite e o Sacrilégio, dentre outros bares da Lapa e da Zona Norte.

A esse respeito, o coreógrafo João Carlos Ramos diz: “É preciso encontrar novas formas de estar com as músicas atuais, buscar novas formas de se dançar. Neste aspecto, a dança de salão está devendo”.

___

No mesmo trabalho, temos citação de Jaime Aroxa e Jimmy de Oliveira, que certamente colocarei em breve.

Continua…

page 1 of 1


Bem-vindo , hoje é sábado 19 de maio de 2012