Sobre as origens do samba de gafieira, nós poderíamos falar aqui da história, colocar imagens antigas, fotos em preto e branco, trazer referências e artigos antigos, trechos de livros, enfim… não vamos fazer nada disso.
Assistam os vídeos abaixo (tem outros, claro) mostrando vivamente a verdadeira origem do samba de gafieira, dançado pelo seus precursores nos dias atuais. Eles são “Os mais da Gafieira”que já dançavam nas gafieiras antigas e mostram o que se fazia antigamente e ainda hoje se faz.
Eu vejo e digo: por mais que se tente inventar algo diferente, o que esses “senhores” e suas “damas” fazem coloca qualquer jovem na categoria de simples aprendizes. Eu tenho muito o que aprender ainda e continuar aprendendo com eles.
Aliás, muitos dos grandes nomes de hoje do samba de gafieira aprenderam com eles. Ah(!) esses aí não frequentavam escolas de dança, frequentavam bailes. Isso demonstra que a frequencia em bailes de dança de salão é que ajuda, e muito, a aprimorar a nossa dança, tornando-a segura e natural.
Veio-nos a oportunidade de falar um pouco sobre o samba de gafieira. Afinal, o que vem a ser este “bicho”? Muito se fala dele e nele, mas o que notamos é que há uma distância muito grande entre a coisa em si, a prática desta coisa e as pessoas que o praticam hoje.
Primeiramente, samba é samba. Aí vem outros falarem nas suas subdivisões, que não aprofundaremos neste estudo, mas só para citá-los:
partido-alto, samba-exaltação, samba-canção, samba-enredo, samba-choro, samba-sincopado, samba de breque, bossa nova, samba-pagode, samba de moderno partido, sambalanço ou samba swing, samba-reage e samba-rock.
Essas nomenclaturas referem-se ao samba enquanto música.
O samba de gafieira tem esse nome porque originalmente era dançado em cabarés, clubes e gafieiras localizados no subúrbio carioca, em bairros onde, atualmente, estão as escolas de dança de salão mais conhecidas. É importante ter-se em mente que a gafieira é apenas o local onde esse samba surgiu, no qual eram tocados também outros gêneros musicais como bolero e swing, dentre outros.” (PERNA, 2005)
A alta sociedade da época era realmente avessa à música do povo. Naquela época, estamos falando da década de 40, começa a surgir então um movimento muito forte no mundo, que influenciou e até hoje influencia, a música ocidental e agora a oriental. O movimento Swing.
A explosão do swing foi algo inimaginável para os dias de hoje. Mas na época repercutiu na composição de quase todas as bandas ocidentais. Era a época das Big Bands. Bandas musicais onde o número de componentes ultrapassava facilmente dez elementos. Havia uma saudável concorrência entre elas no momento dos bailes, uma querendo tocar melhor do que a outra. Muitas vezes no mesmo baile haviam duas bandas propositadamente dispostas em dois palcos antagônicos. Quando uma terminava de tocar, já começava a outra, como dois grandes duetos no salão. E os dançarinos freneticamente dançando… Foi no bairro pobre do Harlem, em New York, mais precisamente no Savoy Ballroom, onde os negros divertiam-se com sua dança, que a partir de 1927 foi denominada de Lindy Hop. O Savoy Ballroom funcionou de 1926 a 1958.
Pensilvania 6-5000 (Glen Miller Orchestra)
A característica principal desta música era a presença dos metais, tipicamente reconhecidos no jazz, como o saxofone, p. ex. Mas na verdade o jazz é um gênero musical, até onde pudemos pesquisar, extremamente genérico e que engloba diversos outros gêneros. É como nosso samba, que tem outras pequenas subdivisões, como citamos acima, compreendendo que tudo é samba. Assim, fazendo uma analogia, tudo é jazz. Para se entender de forma mais simples.
Ora, e qual é a característica marcante da música jazz? O improviso musical.
E qual seria então, como reflexo lógico e natural, a característica marcante da dança, swing? Também, o improviso.
Mas o que tem a ver o jazz, o swing, etc como samba de gafieira? Tudo!
Notemos que, nos salões de baile brasileiros se dançava bolero (também muito em evidência na década de 40), swing (por influência direta norte-americana) e também nossos gêneros nacionais: samba-canção, samba-batucada e samba-liso. Essas eram as três formas de se dançar o samba de salão no Brasil até a década de 1940, segundo Foraciari (1950).
Samba-canção era uma dança de dois movimentos por compasso;
Samba-batucada era uma dança com três movimentos por compasso, baseado no samba-canção;
Samba-liso era uma dança de quatro movimentos para dois compassos, sendo totalmente diferente dos outros dois.
Podemos perceber sua letra triste, até mesmo depressiva em alguns momentos, mas falando de amor. Era característica do samba-canção e até mesmo de um samba “embolerado”, se podemos dizer assim.
Na década em questão, 1940, o swing começa a influenciar o nosso samba. Com isto ele toma a seguinte forma audível:
Neptuno (Raul de Barros, 1958)
Raul de Barros foi um dos grande intérpretes e com as características básicas de um samba de gafieira genuíno. Nota-se claramente a influência dos metais na música, uma ginga mais própria nossa, de nossas raízes e uma bem maior alegria na sua execução. Todas essas características foram ter à dança, que daí sim começou a ser desenvolvida como samba de gafieira que conhecemos hoje.
Por dentro das décadas de 1950, 1960 (eclosão do movimento bossa nova no Brasil) e passando pelos anos 1970 (das discos) até chegar aos dias de hoje, o samba de gafieira foi-se tranformando. Principalmente com a queda das gafieiras, após os anos 60, a dança foi ficando esquecida e deixando de ser praticada nos salões, pelo menos da forma massiva como era. Sobreviveram poucas gafieiras, restritas claro, ao Rio de Janeiro.
Gafieira Elite, Rio de Janeiro
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Gafieira Estudantina, Rio de Janeiro
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Gafieira Lapa 40º, Rio de Janeiro
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E para finalizar esta pequena pesquisa, segue um áudio de um samba de gafieira bem atual. Notem que já temos aqui muita influência de outros estilos, que já vieram com a evolução tecnológica, como guitarras, mas persistem os metais… poderíamos até dizer que seria um samba de gafieira com um toque de samba rock (?)
Reza Forte (banda Sandália de Prata)
No próximo post falaremos um pouco mais da dança: samba de gafieira.
fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena social carioca. 2005. Salvador, BA
Continuando… Ana Maria também entrevistou Jamie Arôxa, respeitado profissional da dança de salão carioca e conhecido nacionalmente.
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Esta observação fica ainda mais evidente na declaração do professor de dança de salão Jaime Arôxa, publicada no Jornal Dance (1997): “A sociedade ainda não viu a dança de salão como ela realmente é. Ainda há preconceito, a consideram uma dancinha. As pessoas não descobriram que a dança é de utilidade pública. Deveria ter recomendação do Ministério da Saúde. Junto com o ‘Não Fume’, deveria vir ‘Dance Muito’.
(sobre dançar a dois)
O maxixe foi a primeira dança que juntou o homem com a mulher aqui no Brasil. A primeira dança agarrada. O Brasil, digamos, foi o pioneiro nesta idéia de agarrar a mulher, porque até então o homem apenas tocava a mulher. Já, no maxixe o homem agarrava a mulher.
Com relação ao preconceito de uma parte da população carioca com as gafieiras, o professor Jaime Arôxa menciona: Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, pedi para o motorista de táxi me levar a uma gafieira. Ele disse: Não, é perigoso! (…) Eu comecei nos puteiros, depois fui para as gafieiras e fui crescendo, passando pelos salões mais requintados. Sem preconceito, eu adoro todos!
É o próprio Jaime Arôxa, ao fazer referência à inserção de passos de tango na dança do samba de salão carioca, que esclarece o fato de existir uma despreocupação das pessoas no que diz respeito à descaracterização da dança. Arôxa relata: Eu introduzi alguns passos de tango no samba, também me arrependo disso, porque hoje eu sinto que foi usado de uma maneira errada, passou dos limites. Eu vejo que, você pode mesclar um pouco da dança, mas tudo tem um limite. Na hora que você mescla demais, deturpa, ela perde a cara dela e, fica outra coisa. No tango, por exemplo, nunca vai ter passos de samba. O samba vai ser sempre imitação do tango. Ou seja, é melhor a gente não colocar tantos passos de tango no samba.
Quanto à atitude da dança, o professor Jaime Arôxa descreve: É uma dança que exige do cara, que ele pegue na mulher de uma maneira diferente de como ele pega no bolero. Por exemplo, tem que pegar mais: Venha cá, você é minha neguinha. E vamo manda ver prá lá e vamo manda prá cá. E ela: E tal…Você é meu malandro, então vamo nessa. Rola uma coisa de morro do Rio de Janeiro, que quando tem é maravilhoso! (…) Tem o sentimento do samba. No samba dançado anteriormente aos anos 90, as mulheres não tinham condução, eram levadas. As cenas que víamos, eram meio cafajestes… mulher do malandro… e as histórias circulavam em torno do universo do malandro. Era um samba onde os homens mandavam ver com as mulheres e pronto. Eles, não tinham pena, não! Elas tinham que seguir e pronto acabou.