Resultados da pesquisa Tag: Samba de gafieira

Samba de gafieira, “a dança do corpo” 2

fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena  social carioca. 2005. Salvador, BA

“A coreografia do samba de salão é acompanhada de música em compasso 2/4, com marcação binária e ritmo sincopado. Uma das características da dança do samba de salão carioca é a de ser fundamentada no corpo, nas suas percepções e nos sentidos do corpo. Conforme se vê em Sodré (1979): “O samba é dono do corpo”. O que podemos assinalar nesta pesquisa é a majoritária contribuição dos elementos africanos nesta dança. O samba de salão carioca pauta-se em alguns aspectos tais como a atitude ou caráter, senso do tempo (ritmo sincopado), orientação do espaço e da condução do parceiro.

Entendemos que a atitude e o caráter do samba de salão carioca está essencialmente relacionado à malandragem, ao jogo de cintura, à malícia e a sensualidade do requebrar e do rebolar dos movimentos do quadril e da ginga do corpo. Estes elementos distinguem e diferenciam totalmente o samba carioca das outras danças de salão.

Nesta modalidade de samba, o jogo coreográfico acontece entre duas pessoas, onde o volume ocupado pelo corpo da mulher e o volume ocupado pelo corpo do homem estabelecem o conceito de unidade. Na medida em que acontece a aproximação dos corpos, os dançarinos sentem o peso do corpo e o do parceiro, que geram movimentos por meio de pontos mutáveis do contato entre eles, onde cada um dá suporte ao outro. É onde a gravidade, a atuação da força centrífuga, o equilíbrio, a consciência do eixo e o alinhamento dos ossos obedecem às leis da física.

O prazer desta dança a dois está baseada na sensação do toque e no equilíbrio entre as duas pessoas. É por meio do toque que a informação sobre o movimento de cada um é transmitida; aquele que toca ao mesmo tempo é tocado. A comunicação acontece através do contato, os casais se movem juntos e são guiados pela linguagem sensorial da pele, do peso, do toque, da pressão, da direção e da velocidade.

A partir de uma adequação harmoniosa entre as partes, o prolongamento e ampliação dos corpos dançantes atuam como um centro de forças opostas, devendo estar em equilíbrio e em relação complementar. Acreditamos que o contorno dos corpos dançantes é uma fronteira onde suas partes se movem, se relacionam, se complementam e são envolvidas umas às outras, tornando um sistema único.

Esta nova espacialidade ou topologia do corpo é delineada a partir das relações de aproximação e distanciamento pelo mesmo espaço, surgindo novos desenhos e contornos. Esta ampliação corporal nos traz a idéia de que os corpos são dilatados, evidenciando a formação de um outro corpo, que denominamos de corpo harmônico. Isso se dá a partir das relações de aproximação, distanciamento e redução do espaço entre eles. Para ilustrar esta idéia recorremos a uma obra de arte como, por exemplo, um quadro, onde o homem seria a moldura e a mulher a tela, pois quando observamos rapidamente um quadro, o olhar é focado no quadro como um todo. Assim sendo, a moldura e a tela formam uma totalidade única e dinâmica.”

___

Continua…

Samba de gafieira, “a dança do corpo”

fonte: São José, Ana Maria de. Samba de Gafieira: corpos em contato na cena  social carioca. 2005. Salvador, BA

Eu alterei um pouco o título original do trabalho. Isto porque vou publicá-lo em “pedaços”, pois originalmente compõe a dissertação de mestrado de Ana Maria de São José (SAMBA DE GAFIEIRA: CORPOS EM CONTATO NA CENA SOCIAL CARIOCA), da Universidade Federal da Bahia, pelo programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (2005).

Achei mais apropriado publicar partes do trabalho, de forma que coubesse no contexto deste blog e para melhorar a leitura de vocês, tornando-as mais ágil. Mas o trabalho é muito interessante e merece ser lido na íntegra. Pura cultura brasileira.

E, para iniciar essas postagens, vou direto para os comentários, altamente elucidativos, dos grandes nomes da dança de salão no Brasil de hoje. Apesar de faltarem alguns, em muito importantes também, aqueles que Ana Maria entrevistou já rendeu uma boa coletânea que reproduzo a partir de agora.

___

A partir dos anos dos anos de 1980, a interferência de outras culturas no ambiente da dança de salão carioca, tem favorecido novas reconstruções culturais, até a inserção de passos do tango argentino na dança do samba de salão carioca. Consideramos que o turismo pode ser apontado como fator de mudanças na dança de salão e conseqüentemente no samba de salão carioca.

As pessoas foram atraídas pelo tango, os ambientes das milongas na cidade de Buenos Aires ficaram repletos de dançarinos e professores brasileiros. Constatamos que o samba dançado por muitas pessoas pelos salões de dança carioca, hoje, é bem semelhante e contém inúmeras figuras do tango argentino. Os depoimentos, de uma maneira geral, indicaram que a dança do samba de salão na contemporaneidade sofreu algumas alterações, transformou-se com a incorporação de alguns passos do tango argentino.

É comum ouvir dizer que o samba hoje em dia está mais tangueado ou tangado. A freqüentadora Venina da Silva, 77 anos, ex-rainha da Estudantina Musical no ano de 1981, nos relata que “a dança de gafieira mudou muito. Ela é muito coreografada, parece mais uma dança de palco do que de salão”.

Sobre outra ótica, o coreógrafo João Carlos Ramos relata:

Esse purismo, está me cheirando a nazismo. Hitler, que queria conservar uma raça pura! O Brasil, é isso: é mistura. O brasileiro se interessa pela mistura e pelas novidades. Eu acho tão lindo, quando as pessoas vão ali pro salão e colocam passos de tango no samba. Eu acho maravilhoso, porque ele está pesquisando, está se desenvolvendo, ele está vendo se dá certo. Pelo menos, ele está tendo uma “ousadia”, enquanto outros, querem deixar a coisa no seu conforto. Um cara “da antiga”, digamos: ele vai combater porque? Por um lado, ele não concebe aquilo na cabeça dele e por outro lado o corpo dele também, não tem tantas possibilidades, como tem um garoto de 17, 18 e 22 anos. Na realidade, os jovens sempre foram discriminados no salão. Agora, ao meu ver, o que aconteceu é que a rapaziada que está produzindo dança de salão, não soube lidar com isso. Eu acho que é preciso estudar, obter ferramentas, para que se possa desenvolver qualquer manifestação a nível acadêmico, porque popularmente o povo se incumbe disso. Se a gente quer, que a dança de salão tome um novo rumo e ocupe um lugar, os profissionais vão ter que adquirir, uma formação. Eles aprenderam os passos muito bem, mas ficou nisso… Os bailes agora são nas academias, antigamente a troca era feita no salão. Na minha opinião, a mistura é até boa.

Prosseguindo:

(…) Mas a minha preocupação é estar coerente com o samba. Que o afro está ali por trás, que a negada está ali! (…) O corpo, tem que estar lá e cá, como no embalo do mar. Samba? Samba é improviso.

[...]

SAMBA DE GAFIEIRA:
CORPOS EM CONTATO NA CENA SOCIAL CARIOCA

Além da inserção dos passos de tango, observamos variações na coreografia do samba de salão carioca, vindas das inúmeras criações do professor-dançarino e coreógrafo Jimmy de Oliveira. Estas contribuições podem ser vistas nos diferentes salões de dança carioca e em outros salões de dança no Brasil.

O coreógrafo João Carlos Ramos relata:

Resgatou-se aquela maneira de dançar o samba coladinho, estiloso. O Carlinho de Jesus, eu diria, que foi um dos responsáveis pela volta da figura do malandro, aquele que está no inconsciente coletivo das pessoas. Eu mesmo comecei a fazer dança de salão em 87, eu já recebi isso e fui transformando isso, na minha maneira mesmo. Eu trouxe isso pro campo da companhia de dança. O Jimmy prá mim é um dos estilos mais significativos na história destas décadas de 80, 90. Ele transformou completamente a estética da dança de gafieira, do samba que se dança a dois. (…) Gerou o Bolacha. Porque o Bolacha, ele faz o equilíbrio, que eu diria assim… Não perfeito, mas ele faz aquele estilo do malandro mais antigo, calça de linho, o sapato… Mas a camisa, você vê que é assim tipo dos dias de hoje. E a mão, é aqui, [mostra a mão no alto das costas] colada na dama. Tem uma interferência do funk, porque ele vem da escola do Jimmy. Ele sedimenta mais, como se tivesse ancorado ali com ele. O Carlinho, o Valdeci e outros mais…

[...]

Nessa mesma direção, Geertz (1989) coloca que é impossível pensar a natureza humana como exclusivamente biológica e desvinculada da cultura, constitui-se uma relação interativa entre eles, ou seja, é a própria cultura que dá o caráter de humanidade a esta espécie animal. A esse propósito, o coreógrafo João Carlos Ramos diz: “quer falar de cultura, deixe o corpo se expressar”.

[...]

Sobre o jeito de corpo, a postura e a malandragem que devem estar constantemente presentes na dança do samba, em entrevista, o coreógrafo e professor João Carlos Ramos diz: “Eu pesquiso o universo do samba e a gafieira está inserida neste universo. (…) Tem gente que quer dançar samba mais não quer ser confundido com crioulo. Aí, eu sei como é que é…Você tem que saber o que você quer dançar. Tem uma coisa que é samba, tem uma coisa que é valsa!”

[...]

Ao freqüentar a noite carioca e os diversos ambientes culturais, constatamos a imensa procura dos jovens pela musicalidade do samba. Novos grupos de músicos e bandas são formados com a participação de jovens, que também são presenças marcantes pelos espaços culturais tais como a Casa da Mãe Joana, o Antiquário Rio Scenarium, o Centro Cultural do Rio de Janeiro, o Carioca da Gema, Dama da Noite e o Sacrilégio, dentre outros bares da Lapa e da Zona Norte.

A esse respeito, o coreógrafo João Carlos Ramos diz: “É preciso encontrar novas formas de estar com as músicas atuais, buscar novas formas de se dançar. Neste aspecto, a dança de salão está devendo”.

___

No mesmo trabalho, temos citação de Jaime Aroxa e Jimmy de Oliveira, que certamente colocarei em breve.

Continua…

ASgaRfieira

-

Oficinas de dança e Baile de encerramento das atividades de 2009

Oficinas_fim_de_ano

Faça já sua inscrição em: http://dancasalaojoinville.com/blog/inscricao/

page 2 of 3


Bem-vindo , hoje é sábado 19 de maio de 2012